terça-feira, 20 de dezembro de 2016

O dia em que aprendeu a voar


Conduziu o carro lentamente até à beira da falésia e saiu. Era uma manhã fresca e limpa de Dezembro. O sol matinal de Inverno não o aquecia, mas replicava-lhe o corpo, desenhava-o em sombras no chão. Olhou para o céu, azul ingénuo, pintalgado com escassas nuvens como figurantes, pequenos farrapos de vida que, debalde, tantas vezes tentou juntar.

Baixou o olhar e, lá em baixo, as ondas que batiam nas rochas formavam desenhos que lhe eram por demais familiares. Nessa súbita assunção conseguiu ver toda uma vida passar à sua frente, afinal breves minutos foram suficientes.

Foi-se despindo lentamente, colocando a roupa no chão, dispondo-a como se estivesse a vestir outra pessoa, peça a peça no seu lugar respectivo. Já totalmente nu, dirigiu-se de novo à beira da falésia. Ouviu o chamamento das gaivotas que adejavam em círculos entre a terra e o mar. Abriu os braços e seguiu a gaivota mais próxima.


Foi nesse dia que aprendeu a voar.