domingo, 13 de novembro de 2016

Trump(alhadas)

Confesso que a campanha eleitoral americana não me roubou muitas horas de atenção ao longo deste último ano. Quando ficaram definidos os candidatos, cada um representante do seu Partido, continuei a olhar para a campanha com o afastamento e desatenção de quem tem coisas muito mais importantes para ocupar o seu pensamento. Olhando para o australopiteco Trump, percebi as graves divergências que deveriam existir no Partido Republicano: provavelmente não haveria consenso, determinação e força no Partido, ou, como já me habituei a registar, seria uma enorme farsa, levando a cedências entre os Poderes para deixar que a dinastia Clinton realizasse um sonho narcisista que foi interrompido há oito anos pela “traição” cometida pelo Senador do Illinois, anos-luz à frente de Hillary em inteligência, capacidade de liderança e perfil de estadista. Claro que não foram cumpridas nenhumas das suas ((do Senador do Illinois e Prémio Nobel da Paz (da Paz?!!!... Como estas coisas me divertem!!!…)) promessas na campanha, mas convenientemente para ele e para todos os concorrentes à Casa Branca, a desculpa é (sempre…) a de que as propostas não passam no Congresso que, (juntamente com o Senado) é quem manda nos States (um alívio para os candidatos a inquilinos da Casa Branca).
Seriam favas contadas, pensei eu: Hillary, sem conseguir transmitir alguma mensagem além da que seria a primeira mulher a chegar à presidência dos States, vazia de ideias e convicções, apresentando um discurso demagógico e pueril, mas com a vida mais do que facilitada pelo primata humanóide, mesmo refém das trapalhadas dos e-mails, das posições episodicamente contraditórias a favor e contra as invasões americanas do Médio-Oriente, não deveria ter dificuldade em ganhar as eleições. E a América continuaria a ser a mesma de sempre: a das bombas de Hiroshima e Nagasaki, a das bombas de Napalm no Vietname, a da enorme patranha da alunagem em 1969 ((obra-prima de Stanley Kubrick, (a quem o verdadeiro Poder americano ficará eternamente agradecido), maior do que “2001 Odisseia no Espaço)), a do fornecimento de mísseis Stinger aos  Mujahedin (que agora se chamam Talibans) do Afeganistão, aliados não declarados, mas, como sabemos, parceiros das classes poderosas dos States no negócio da Rota do Ópio), a do apoio a Saddam Hussein e Muammar Kadafi, antes de se tornarem incómodos para os interesses dos States e, consequentemente, alvos a abater, a do auto-infligido bárbaro ataque de 11 de Setembro (tendo sido caricatamente atribuído a uma personagem mítica a quem deram o nome de Osama Bin Laden, o mesmo que foi relatado ter sido capturado e morto no Paquistão e, posteriormente atirado ao mar…), a da invasão do Iraque, a da incubação do ovo da serpente que pariu o Estado Islâmico, a do advento da “Primavera Árabe”, enfim, a América sempre igual a si própria.
Mas chegou o dia das eleições. E eu, face aos resultados, fiquei de queixo caído. E foi quando a minha atenção se concentrou na América. Tentando abstrair-me da histeria da comunicação social nacional politicamente correcta, desvalorizando eu (ou, pelo menos, tentando…) as repetidas transcrições das apocalípticas declarações mais violentas do australopiteco respeitantes ao Muro contra os Mexicanos, ao anúncio da extinção do Estado Islâmico, à retirada das tropas americanas da Síria e da Ucrânia (será mesmo que Putin acreditou e saltaram rolhas de MOET & CHANDON no Kremlin?... Duvido, sinceramente…), à cobrança do pagamento de protecção aos membros da Nato, e outros delírios… ,fui procurando aqui e ali a ponta do novelo e não me foi difícil começar a compreender realmente o que se estava a passar: as primeiras palavras do australopiteco foram de elogio à sua adversária, pela sua coragem e determinação, depois de ter ameaçado prendê-la se ganhasse as eleições. Nas horas seguintes já declarava estar sensível a certos assuntos ((concretamente a Saúde (oh!... a Saúde… onde será que eu já ouvi isto?...)) que Obama abordou com ele e onde o próprio admite dar passos atrás relativamente a declarações na campanha; os lobistas que tão violentamente atacou,  começaram a ser sondados sobre a disponibilidade para constituir governo. E um sorriso se aflorou nos meus lábios. Afinal não fomos só nós, eu e a maioria da opinião pública internacional e dos media nacionais e internacionais a ficar surpreendidos: até o próprio Trump está esmagado sob o peso do que não previu: a sua vitória! O feitiço virou-se, uma vez mais contra o feiticeiro. Ao assumir o papel do candidato contra o sistema, caricaturando o discurso para defender os desfavorecidos, os habitantes daquela América profunda dos Estados do Interior, os desempregados vítimas da globalização, diabolizando as mentes perversas de Wall Street  simbolizadas por Hillary, apelando àqueles que poderiam ser sensíveis a um discurso não sofisticado, falando de coisas simples em linguagem facilmente entendível e, muito importante, abrindo as portas dos armários para deixar sair os esqueletos, acabou por abrir a Caixa de Pandora, fenómeno nunca previsto, provavelmente ajudado também por alguma abstenção da comunidade com nível de ensino mais elevado, junto com aquilo que se chama tradicionalmente o eleitorado de esquerda, pessoas que não se reviram na total ausência de ideias e credibilidade de Hillary (e, não esqueçamos,  o “tricky” modelo eleitoral americano…). E o Partido Republicano deverá estar numa barafunda, confrontado com aquilo que, verdadeiramente, nunca previu. Trump terá que negociar com a franja (melhor, as franjas) do seu partido que não o apoiou, bem como com o Partido Democrata ((que tem os dossiers e, indiscutivelmente, as pessoas mais sabedoras da governação e mais capazes de aguentar o fardo (das políticas, interna e externa americanas)), a transição o mais tranquila possível, se quer evitar fazer rebentar o barril de pólvora, constatando-se as trincheiras e arregimentações que foram sendo criadas e agudizadas ao longo do mandato Obama (que foi uma enorme desilusão referente às expectativas que tinham sido criadas nas comunidades, negra e hispânica) e, meteoricamente, no final da campanha presidencial.

Resumindo a campanha eleitoral, aquilo que se me afigura ter sido, é uma gigantesca manobra de jogos de espelhos e sombras, mais um Grande Circo Americano em que alguém deixou o aprendiz de feiticeiro ir para além da prudência.

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