quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Tempo de Lutar, Tempo de Amar

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Este texto foi escrito fazendo parte de um projecto colectivo de um conto chamado O Ovo Mágico. Na qualidade de ser este um dos segmentos do conto colectivo, não começa no princípio da história nem termina no seu final. Mas, por outro lado e por essa condição, deixa ao leitor uma diversidade de interpretações. Considero, assim, poder ser este texto lido só por si próprio, convidando os leitores a acrescentar-lhe mentalmente prefixos ou sufixos ditados pela imaginação. Não será este um dos princípios da ficção literária?





Tempo de Lutar, Tempo de Amar






Eva, no estado de torpor em que se encontrava languidamente estendida na sua cadeira de pensar, numa tarde de sábado que morria docemente, sentia desvanecer, lenta e gradualmente, o som do bater de asas do galo, a procurar o equilíbrio possível na cana de pesca , enquanto que outro som ia crescendo de volume, um som metálico que de tão familiar, se tornava cada vez mais macio, diluindo-se nos outros ruídos do dia-a-dia, som de um instrumento da orquestra em actuação permanente da sua vida…

Abriu lentamente os olhos e viu à sua frente Adão, seu companheiro, que dava ao filho de ambos, Caim, conselhos redobrados de manuseamento da Kalash: segurança, rajada e tiro-a-tiro. Os dois, apercebendo-se de que ela tinha acordado, disseram em uníssono: “Eva, Mãe, já acordaste?” E agora, Adão: “Querida, estávamos a falar tão baixo quanto possível, pois não te queríamos acordar, já que dormias com um maravilhoso sorriso no rosto…” Ela respondeu apenas com um outro enorme sorriso do tamanho do mundo, mostrando os dentes brancos e os olhos cheios de rios e barcos. De imediato, ao olhar para o seu filho, Caim, virou a cara para o lado, de forma a não mostrar o ar introspectivo com que ficou, lembrando-se que no sonho apenas tinha tido um único filho, Abel. E recriminou-se por isso. Tão estranho… mas ao mesmo tempo, tão doce sonho!...
Desde que tinham passado à clandestinidade, opção de ambos, após terem chegado à conclusão de que a Corrupção, a Usurpação de Poderes e todos os tráficos possíveis no seu País, tinham minado todo e qualquer meio de combate político pacífico ((e conscientes de que arrastavam também dois filhos jovens, que no entanto (mostrando uma clarividência e determinação pouco usuais nas suas idades) manifestaram desde o início a sua vontade de os acompanhar na perseguição de um sonho de Liberdade e Bem-Estar para o seu povo, sacrificado, espezinhado desde os primórdios, usado e abusado, nada mais restando a quem tivesse um pingo de vergonha, dignidade e solidariedade para com os seus compatriotas, senão a opção tomada)), tinham-se transformado em proscritos, em alguém que não pode sequer por breves momentos descurar a atenção e vigilância. Adão dormia pouco, muito pouco, muitas vezes dormitava de pé com a Kalash nas mãos, encostado à entrada da gruta algures na Arrábida, mas adorava observar a sua companheira sorrindo a dormir. Protegia-a como podia e sabia, mais ainda após a trágica morte do segundo filho, Abel, vítima de uma emboscada montada pelo exército dos Tiranos, quando passavam os dois irmãos por um dos trilhos da Serra. Nunca tinham (nem Adão, nem os seus camaradas de luta, foragidos e espalhados por outros pontos da Serra) entendido as razões pelas quais estariam ali militares do Estado Tirano, depois da zona ter sido “varrida” quase palmo a palmo algumas horas antes. Caim voltara à gruta, informando os seus pais de que o irmão tombara, pedindo ajuda a seu pai para o resgate. Mas, misteriosamente, quando lá chegaram, não encontraram o corpo – durante horas revolveram arbustos, passaram a pente fino toda a área, mas nem o mais ténue sinal de Abel. Finalmente, cansado e desesperado, Adão regressou à gruta com a triste notícia para Eva: o (corpo do) seu filho tinha desaparecido.
Eva não chorou, não fez luto; durante semanas, todas as manhãs perguntava a Adão com os seus olhos de rios e barcos: ”Por onde andará? Porque tarda a voltar?” Adão abraçava-a com força e sussurrava-lhe ao ouvido: “Ele sabe tomar conta de si, quando chegar a altura, ele voltará…” Eva não lhe podia ver agora os olhos, mas eram de cinza, de carvão apagado, os músculos dos seus braços retesavam-se, apertando cada vez com mais força a sua companheira. Um dia, Eva deixou de perguntar… Limitava-se a olhar para o trilho por onde tinham partido os dois irmãos… após alguns minutos, voltava para o computador portátil, revendo os textos que seriam enviados para o Servidor do Movimento, alojado num país neutro, a fim de serem distribuídos na Rede.
Eva recordava os tempos em que era Bióloga, o seu ternurento e excêntrico director, o Professor Hikyll e havia alturas em que se questionava se tudo tinha valido a pena. Mas de imediato olhava para o pequeno quadro que tinha pendurado na parede da gruta, com o seu poema preferido de Pessoa: “…Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena… Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor...”, fechava os olhos e uma tranquilidade lhe inundava o corpo e a alma. Outros dias havia em que lhe vinham à memória (espontaneamente, sem que fizesse questão nisso ou muito menos tivesse prazer de o lembrar) as constantes disputas entre os seus filhos – quem chegava mais depressa à Rocha Inclinada, quem atirava uma pedra mais longe, quem conseguia encher mais depressa o carregador da Kalash… Lembrava-se bem que na maioria das vezes, Abel era mais rápido, embora sendo o mais novo e a constatação desse facto irritava Caim ao ponto de começar a praguejar contra o irmão, acusando-o de fazer batota e chamando a atenção dos pais, o que levava não raramente à sua intervenção para pôr cobro à discussão. Eva recordava as vezes em que, chamando de parte o seu filho Caim, lhe tentava fazer compreender que, para se ser bom não tem que ser-se necessariamente o melhor e ele não precisaria nunca de demonstrar a sua superioridade face ao irmão para ter o amor, respeito e consideração, quer dos pais, quer dos restantes combatentes que se iam juntando à luta e à clandestinidade. Mas a obsessão superava a razão e, para sua preocupação, Eva continuava a assistir, impotente, à necessidade de afirmação (e frustração, quando o não conseguia) do seu filho mais velho, Caim. Sempre amara os dois filhos por igual, o desaparecimento do mais novo (que ela teimava em não aceitar como tendo falecido) não transferiu a torrente de carinho de um para o outro: continuou a amar Caim como sempre, assim como dedicava o mesmo amor a Abel, ou, se se quiser, convertendo na mesma medida a tristeza pela sua ausência. As frustrações de Caim tinham acabado, é certo, mas (e também por essa razão) Eva, conscientemente, nunca o quis transformar em novo-filho-único, mimando-o em excesso ou sendo demasiadamente tolerante em relação a hábitos e atitudes de menos correcção. Em certas alturas, Eva era visitada por temores e pensamentos terríveis que de imediato afastava com todas as suas forças, tentando não transparecer na presença do seu companheiro nada do que estava a sentir, admoestando-se a si própria por ser capaz de tais pensamentos. E dos ditos não me alongarei mais, certo de que o leitor já por certo se terá apercebido da ideia subjacente às minhas palavras, conhecendo ou não o Antigo Testamento.
Um dia, Adão chegou de uma Operação, visivelmente transtornado, Eva pareceu ver-lhe lágrimas nos olhos e perguntou: “O que aconteceu, porque estás assim, morreu algum dos nossos?” Ele respondeu-lhe: “Dos nossos ninguém morreu, tão pouco dos deles… mas eu quase que matei um soldado, muito novo, um rapaz, pouco mais que uma criança… Ainda bem que a visibilidade era boa e pude fazer pontaria para onde queria… Não me perguntes porque me arrisquei tanto, ao tentar apenas neutralizá-lo, ferindo-o sem gravidade, pois não te sei responder. Ainda assim, quis evitar magoá-lo, mas não pude – era ele ferido ou eu morto – apontou-me a espingarda e ia disparar; atirei-lhe para o braço cuja mão tinha o dedo encostado ao gatilho… de imediato deixou cair a arma, esta que trago ao ombro, quando o vi de joelhos no chão, com cara de menino, a chorar como só uma criança o sabe fazer, senti um nó na garganta… é assim a guerra, quem me dera que fosse o Presidente da República, ou o Primeiro-Ministro, o Ministro da Defesa ou qualquer outro Ministro, ou um banqueiro, um deputado ou qualquer outro parasita do País, quem estivesse dentro daquela farda a apontar-me a arma”, teria sem hesitação atirado a matar… mas quando vi aquele garoto, aquela cara sardenta… “Deixaste-o ir embora?”, perguntou de imediato Eva, “Sim, respondeu Adão, “não sem antes lhe dizer estas palavras: Rapaz, tens consciência do que andas a fazer? Sabes que o exército em que militas serve para o Poder Tirano reprimir, oprimir, destruir, condenando à fome o Povo? Que serve para invadir países que nunca nos ameaçaram, nunca nos fizeram mal, semeando a destruição e morte das populações, apenas em nome da ganância de uma minoria de ricos que não têm outro objectivo na vida senão o de ficarem cada vez mais ricos à custa da miséria de muitos mais, apoderando-se de todos os meios de produção e subsistência, escravizando milhões cuja única culpa é a de terem nascido?” “E ele respondeu?” perguntou Eva, com a voz a tremer e os olhos de rios em enchente . “Arregalou os olhos, como uma criança que começa a ver pela primeira vez e tenta perceber o mundo que a rodeia e perguntou-me: vai matar-me? Olhei para ele como um pai que olha para um filho que cometeu uma travessura, tentando disfarçar com um olhar austero o coração que se ia derretendo naquelas sardas do seu rosto e perguntei-lhe de novo: em que estás a pensar? E ele respondeu-me: na minha casa, na minha mulher que teve agora um bebé, é um rapaz, ela diz que é a minha cara, tem sardas iguais às minhas, pusemos-lhe o nome de Abel; nos meus pais que devem estar muito preocupados pelo facto de há dias não dar notícias; no meu cão, “Ardent”, fiel amigo; estou a pensar que nunca mais os verei.” “O teu filho chama-se Abel… tens alguém na família com esse nome?” “Não, aconteceu por acaso”, respondeu o rapaz. “Um dia, eu e a minha mulher, estando ela grávida, caminhávamos pela praia junto ao mar e vimos na areia molhada escrito esse nome. Não estava ninguém por perto, não conseguimos entender porque razão o nome apareceu à nossa frente, momentos depois veio uma onda e a palavra desapareceu. Naquele momento, aparentemente, esse facto não teve importância, mas, na manhã seguinte quando acordámos, eu disse para ela: tenho um nome para o nosso filho; e ela respondeu: eu sei, é Abel. E Abel ficou.” “Rapaz, disse-lhe eu, hoje é o teu dia de sorte, fui eu que te apareci ao caminho, qualquer outro dos meus camaradas de armas com quem te tivesses encontrado te teria morto ou ferido com gravidade, é o mais provável, assim como provável será que o Destino nos tivesse juntado hoje. Será? Vai-te embora e quando estiveres em casa, na companhia da tua família, lembra-te do que te acabei de dizer. Nunca te esqueças que nós, os foragidos, apenas o somos porque é essa a nossa Missão… ou Destino, se lhe quiseres chamar. Somos guerrilheiros porque um dia chegámos à conclusão que alguma coisa teria que ser feita para bem de todos nós, para garantirmos um presente digno e um futuro de esperança para os filhos dos filhos dos nossos filhos. Agora vai… Levantou-se e partiu. Fiquei a vê-lo, por momentos, a afastar-se. Passou por uns arbustos mais altos, contornou uma rocha e desapareceu. Havia qualquer coisa de familiar nele, mas não consigo perceber o quê, não sei se alguma vez o conheci ou me cruzei com ele, mas sei que nunca o esquecerei, disso tenho a certeza…”. Eva olhava o seu companheiro com aqueles olhos enormes de rios e barcos, perscrutando algo no brilho dos olhos dele, ansiosa, trémula, incapaz de esperar… “Quando finalmente deixei de fixar o sítio onde o vi pela última vez, contornando a rocha e me decidi a voltar, olhei distraidamente para o chão e, para meu espanto, vejo um estranho ovo, pintalgado, no preciso local onde o rapaz tinha estado ajoelhado…” “O sonho!, gritou Eva, o sonho!” “ Que sonho?, perguntou Adão.” “Adão, o que fizeste ao ovo?, perguntou Eva.” “Tenho-o aqui no meu alforge”, respondeu. “Mostra-mo, por favor!”. Adão abriu o alforge e retirou dele cuidadosamente um estranho ovo cor de carne apresentando pintas por toda a casca. “Trouxe-o para ti, Eva, é a minha prenda do teu aniversário, claro que não me esqueci que hoje fazes anos…” Os olhos de Eva eram de rios, de barcos, de enchentes, de cascatas. Pegou tremulamente no ovo e confirmou, como no sonho, que as pintas eram exactamente a cópia fiel das sardas no rosto do seu filho Abel, desaparecido, que tanto tardava a voltar…

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