quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O Dilema

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O texto foi revisto e adaptado de um outro que escrevi há 5 anos, tendo como referência acontecimentos da altura. Entretanto, o meu dilema continua presente...


"O Dilema"

Confesso que já estive, por duas ou três vezes, tentado a enlouquecer, pois o passar dos anos vai deixando inexoravelmente as suas marcas, erodindo, suave mas definitivamente, as minhas capacidades físicas e psíquicas para contrariar esta corrente de apatia e amorfismo que se vai instalando em cada vez mais gente, tornando-nos num país de mortos-vivos. Sei que seria uma fuga, um abandonar do campo de batalha e, como tal, uma atitude nada edificante, mas…

Para mim, enlouquecer, seria, presumo, alcançar uma espécie de estado Zen, o fim da luta desesperada diária contra todos para estar de bem comigo, ou, pasmem (pasmarei eu, também, agora que tenho consciência disso? …) contra mim mesmo, para, em momentos de maior fragilidade, estar de bem com os outros…

Claro que depois de enlouquecermos, nada do que possam os outros (os que amamos, os de quem necessitamos e a quem devemos muito ou pouco, mas sempre algo, os que necessitam de nós e vão sentir a perda sem encontrar uma explicação que os satisfaça) pensar de nós sobre a atitude que tomámos nos afectará, mas o momento extremamente doloroso de lucidez que envolve o estado de consciência desta decisão é brutalmente devastador, porquanto sei que sentiremos num instante tudo o que sentiríamos ao longo de toda a nossa vida restante se pudéssemos, no acto de enlouquecer, criar um segundo cérebro que se mantivesse igual ao primeiro antes de ser alterado, portanto lúcido, que existiria passivamente apenas para registar o que se passasse à nossa volta, sem permissão de interferência no novo cérebro enlouquecido. Mas como não temos essa capacidade, temos que pagar de uma só vez e em breves instantes o preço dessa nossa atitude. E o preço é alto, mesmo muito alto. Por isso, tenho protelado a tomada de decisão.

Tempos houve (afinal, com este distanciamento temporal, parecem não ter sido assim tão maus como eu os senti na altura…) em que a consciência de não estarmos sós, de termos um ideal que nos fortalecia dia a dia e nos alimentava a alma, nos protegia e fazia escarnecer do perigo das perseguições, interrogatórios e espancamentos – foram os melhores tempos da minha vida, embora só o tenha compreendido agora. Toda a esperança que naquela madrugada de Abril transbordou dos nossos corações para as cordas vocais que nos fizeram gritar bem alto as palavras de ordem que não eram senão versos da nossa romântica poesia da Utopia Necessária e Urgente em que acreditávamos, não sei para onde foi… Olho à minha volta e já não vejo os meus companheiros de aventura, apenas uma multidão de mortos-vivos, todos com o mesmo fatinho, a mesma gravata, que segue todos os dias e às mesmas horas pelos mesmos caminhos, passiva, ordeira e obedientemente. Voltámos ao País dos três “efes” (Fado, Fátima e Futebol) e aqueles contra quem lutámos, voltaram “em bandos, com pés de veludo, para chupar o sangue fresco da manada…”. Também com pés de veludo se instalaram em todas as Instituições, nas Televisões e Jornais - foram comprando a bem ou a mal, tanto lhes faz, as consciências dos Jornalistas, transformando-os em papagaios que têm que palrar para comer e utilizando as Televisões como ferramentas de hipnotismo capazes de colocar uma Nação em estado catatónico.

Se bem que a última tentação de enlouquecer tenha sido grande (ao ter conhecimento dos resultados eleitorais de 4 de Outubro), ainda assim, aparentemente, não foi suficiente, apesar de constatar que os mortos-vivos continuam a seguir os responsáveis por aquilo que tem sido o maior desmando da História da nossa Democracia(?...), os atropelos à Constituição para obedecer aos patrões do FMI em nome da ”Crise”, os Belmiros, os Amorins, os Espírito Santo (não confundir com o da Santíssima Trindade…) os actos de traição às promessas eleitorais, as mentiras sucessivamente repetidas, o peculato, a promiscuidade, a pedofilia, a corrupção descarada, o tráfico de influências, as investigações que nunca levam a lugar algum, os processos arquivados. Mas tudo passa ao lado dos mortos-vivos.

Continuo a perguntar a mim próprio: até quando conseguirei resistir à tentação de enlouquecer? Ou quando terei a coragem necessária para enfrentar o momento de maior lucidez da minha vida?

Entretanto...

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