sexta-feira, 23 de outubro de 2015

O Atestado Médico



Com o propósito de obter um atestado de boa saúde para a renovação do meu título, visitei recentemente o consultório de uma médica com um contrato de avença numa escola de condução que, para além da actividade expectável, trabalha também como agência de documentos para condutores e veículos.


Sendo já a terceira vez que renovo a carta de condução e ciente de que o atestado médico não é mais do que um simples “pró-forma” resultante de uma meteórica consulta onde apenas se têm que ler as letras mais pequenas de um cartaz já amarelecido e abundantemente polvilhado por moscas e mosquitos que vão deixando as suas marcas indeléveis, e dizer que não se sofre de nenhum tipo de doenças muito resumidamente descritas pelo pragmático agente de saúde que está sentado à nossa frente, entrei na recepção com a despreocupada atitude de quem espera tratar do assunto sem exagerados gastos de tempo e preocupação.


Como cheguei com uma pontualidade britânica, exactamente à hora que estava agendada, fui recebido com um profissional “Bom dia, Senhor (o meu nome), pela recepcionista que me via pela primeira vez na sua vida, revelador de que não estaria mais ninguém para aquela hora, apontando-me para o local onde estavam duas salas lado a lado e pedindo-me para entrar na da direita. Olhei e verifiquei que estava uma senhora de bata branca na da esquerda, não havendo ninguém na da direita e, longe de imaginar que a minha interlocutora padecia de dislexia direccional, entrei obedientemente na que me foi indicada, não sem algum sentimento de perplexidade que não cheguei a cultivar senão por breves instantes, pois de imediato as minhas trompas de Eustáquio foram impressionadas por um asperamente musical e sonoro ”É para esta sala!”, proferido pela sorumbática e bastante “almodovariana” senhora da bata branca. Já vinha a correr para mim a recepcionista, com um sorriso encavacado de desculpas pela confusão, conduzindo-me para a sala da esquerda. Depois do educado “Bom dia”, provoquei um sorriso de boa disposição na médica, ao dizer bem-humorado que por norma me insatisfaz virar à direita e que apenas o tinha feito por ser uma pessoa bem-mandada; não fosse a confusão da recepcionista, ter-me-ia dirigido pela esquerda e sem hesitações à sala dela. No final desta já mencionada meteórica consulta, depois de ter respondido que me sinto perfeitamente bem, sem nenhuma doença catalogada, ela perguntou-me se distinguia bem as cores. Aí, eu hesitei por breves instantes e, então, com um ar cerimonial lhe respondi: “Vou ser-lhe franco, doutora, não consigo distinguir duas cores.” Ela, com um ar sério e olhos levemente arregalados, perguntou: “E quais são?” Respondi-lhe eu: “O laranja e o rosa…”


Sempre que penso neste meu quase vício de recorrer à metáfora quando dirijo a palavra às pessoas que me rodeiam, sou obrigado a concluir que praticamente já nasceu comigo e, se evocar as pessoas, familiares ou não, que mais marcas me deixaram na minha formação de ser humano, da infância ao estado adulto, indiscutivelmente são ou foram detentoras de uma ironia, tão metafórica quanto ferruginosa que, nas fases mais problemáticas e de maior fragilização das suas vidas foi usada como a sua armadura defensiva. No meu caso, nunca me preocupei em descobrir porque sou assim, não faço disso um desígnio existencial. Sou assim e pronto. No entanto, sinto que tem isto muito a ver com o espírito do “slogan” que Fernando Pessoa criou para a Coca-Cola: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. É com metáfora na ironia que encontro a boa disposição e a forma de a partilhar com os outros. Nem sempre sou compreendido quando a profiro, nem sempre sou bem aceite por quem a compreende. Mas neste caso concreto, a médica escancarou a boca num sorriso mostrando os dentes brancos, reprimindo a custo uma gargalhada e respondeu-me: “Estamos despachados, o senhor aparenta uma perfeita saúde, incluindo a visão. Desejo-lhe um bom fim-de-semana”. Levantou-se e acompanhou-me até à porta, com um ar divertido. Divertido também estava eu. E satisfeito. Afinal, aquele pseudo-exame não tinha servido apenas para obter um atestado. Serviu igualmente para transformar em alegre, o sorumbático semblante da senhora da bata branca. Porque a alegria muitas vezes é tudo o que um ser humano necessita. E as revoluções devem fazer-se com alegria.




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