sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

19 de Abril de 1506


E, no entanto, parece continuarmos a não aprender nada com a História...

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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Pretérito (im) Perfeito

boliquei-me na comba,
neste vale entre altos montes.

assisti à tua génese.

onomatopaicamente te baptizo,
bideto nação te chamarei.

bolicaste-te num estrondo,
bideto nação que faz sismo nos vales.

um estrondo
que faz sismo nas combas onde gravitam fantasmas de outras eras.

bolicámo-nos na senda dos medos, dos misteriosos amanhãs,
dos futuros anunciados de ressurreições dos velhos testamentos.

vós, fantasmas das combas,
bolicastes-vos no deslumbramento dos poderes
que emergem
da profundeza dos vossos infernos.

a orgia, a orgia

a orgia do estrondo,
o estrondo que faz sismo
nas combas do pretérito perfeito.

boliquei-me no pretérito.

(im)perfeito.

domingo, 15 de novembro de 2015

A Palavra Prostrada



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Liberté, Égalité, Fraternité!

Paris, Sexta-feira 13 de Novembro de 2015



a noite escondeu-se na cidade.

ecos próximos lineares
acovardam a folha da noite
convulsiva em silêncios
distorcidos por finais prematuros.

estou só no cenário trémulo das mãos
e uma plúmbea nuvem paira
sobre os cérebros amedrontados.

vejo os dedos órfãos que tocam de leve
as gotas cristalizadas
na oval da palavra prostrada.

sinto o halo envolvente no mutismo côr-de-cera
da palavra prostrada.

sinto uma raiva horizontal
em espasmos incontidos.

ainda a palavra prostrada.

a palavra.

prostrada.

sábado, 14 de novembro de 2015

Dextros Cães

Azrael teutónico revoluteia

tem arames nos olhos

frenéticas batem as mil asas
medonhas são as suas quatro faces
seguem-no dextros cães
ladram, uivam, sentem o cheiro fresco do sangue.

balem os anhos, submissos, rendidos, predestinados.

na noite medonha ouço um coro em uníssono:
morituri te salutant, morituri te salutant, morituri te salutant...

a noite é medonha, medonha é a luz,
mais medonhas são as trevas

e os dextros cães ladram e uivam

e os anhos, submissos, cantam: morsu canun per dextram...

Azrael teutónico eleva a gadanha

na noite medonha ouço um coro em uníssono:
morituri te salutant, morituri te salutant, morituri te salutant...

em súbito alarme vejo-nos sós por dentro da noite

a noite é medonha, medonha é a luz,
mais medonhas são as trevas

Azrael teutónico revoluteia,

em súbito alarme vejo-nos sós por dentro do sono.

é proibido acordar.

domingo, 1 de novembro de 2015

Janela Perdida

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em diminuto espaço horizontal
galopa a morbidez no prazer amargo da distância.

dissolvo-me eroticamente macabro na concha em que nasci
e respingam ódios osmóticos na parede acentuadamente adaptada.

(todas as conchas estão aptas a dissolver desenhos
quebrados por um grito escoado de uma guelra asfixiada).

quebro-me insuficiente no espasmo do eco esmagado
enquanto pateticamente te ofereço
o fumo que me embriaga
dencontro à janela perdida entre corpo e terra.

porque já não sou eu no desterro.

aceita as cinzas de um pulmão raivoso
e deixa a minha destruição alienar-te.

sábado, 31 de outubro de 2015

Pombal abandonado... esperança adiada...

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...abandoned pigeonry, postponement of hope...

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Ide(i)al Ética


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porque das cinzas se cavam
os alicerces de nova catástrofe

deponho vertical uma cicatriz febril aberta de novo.

gota-a-gota os olhos não falam
quando percorrem o meu corpo
com dedos de arame.

nas ruas nas casas nos espaços
desenhos indecifráveis de bocas fechadas.

gota-a-gota
penso-te liberta na noite renovada
por trás das sombras em febre. em cinza.

sei também a necessidade de romper barreiras
na urgência do momento do acto
por cada instante congelado no teu ventre crepuscular.

e o azul adormecido
sorrirá em teus lábios matinais

porque das cinzas se cavam
os alicerces de nova catástrofe.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O Dilema

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O texto foi revisto e adaptado de um outro que escrevi há 5 anos, tendo como referência acontecimentos da altura. Entretanto, o meu dilema continua presente...


"O Dilema"

Confesso que já estive, por duas ou três vezes, tentado a enlouquecer, pois o passar dos anos vai deixando inexoravelmente as suas marcas, erodindo, suave mas definitivamente, as minhas capacidades físicas e psíquicas para contrariar esta corrente de apatia e amorfismo que se vai instalando em cada vez mais gente, tornando-nos num país de mortos-vivos. Sei que seria uma fuga, um abandonar do campo de batalha e, como tal, uma atitude nada edificante, mas…

Para mim, enlouquecer, seria, presumo, alcançar uma espécie de estado Zen, o fim da luta desesperada diária contra todos para estar de bem comigo, ou, pasmem (pasmarei eu, também, agora que tenho consciência disso? …) contra mim mesmo, para, em momentos de maior fragilidade, estar de bem com os outros…

Claro que depois de enlouquecermos, nada do que possam os outros (os que amamos, os de quem necessitamos e a quem devemos muito ou pouco, mas sempre algo, os que necessitam de nós e vão sentir a perda sem encontrar uma explicação que os satisfaça) pensar de nós sobre a atitude que tomámos nos afectará, mas o momento extremamente doloroso de lucidez que envolve o estado de consciência desta decisão é brutalmente devastador, porquanto sei que sentiremos num instante tudo o que sentiríamos ao longo de toda a nossa vida restante se pudéssemos, no acto de enlouquecer, criar um segundo cérebro que se mantivesse igual ao primeiro antes de ser alterado, portanto lúcido, que existiria passivamente apenas para registar o que se passasse à nossa volta, sem permissão de interferência no novo cérebro enlouquecido. Mas como não temos essa capacidade, temos que pagar de uma só vez e em breves instantes o preço dessa nossa atitude. E o preço é alto, mesmo muito alto. Por isso, tenho protelado a tomada de decisão.

Tempos houve (afinal, com este distanciamento temporal, parecem não ter sido assim tão maus como eu os senti na altura…) em que a consciência de não estarmos sós, de termos um ideal que nos fortalecia dia a dia e nos alimentava a alma, nos protegia e fazia escarnecer do perigo das perseguições, interrogatórios e espancamentos – foram os melhores tempos da minha vida, embora só o tenha compreendido agora. Toda a esperança que naquela madrugada de Abril transbordou dos nossos corações para as cordas vocais que nos fizeram gritar bem alto as palavras de ordem que não eram senão versos da nossa romântica poesia da Utopia Necessária e Urgente em que acreditávamos, não sei para onde foi… Olho à minha volta e já não vejo os meus companheiros de aventura, apenas uma multidão de mortos-vivos, todos com o mesmo fatinho, a mesma gravata, que segue todos os dias e às mesmas horas pelos mesmos caminhos, passiva, ordeira e obedientemente. Voltámos ao País dos três “efes” (Fado, Fátima e Futebol) e aqueles contra quem lutámos, voltaram “em bandos, com pés de veludo, para chupar o sangue fresco da manada…”. Também com pés de veludo se instalaram em todas as Instituições, nas Televisões e Jornais - foram comprando a bem ou a mal, tanto lhes faz, as consciências dos Jornalistas, transformando-os em papagaios que têm que palrar para comer e utilizando as Televisões como ferramentas de hipnotismo capazes de colocar uma Nação em estado catatónico.

Se bem que a última tentação de enlouquecer tenha sido grande (ao ter conhecimento dos resultados eleitorais de 4 de Outubro), ainda assim, aparentemente, não foi suficiente, apesar de constatar que os mortos-vivos continuam a seguir os responsáveis por aquilo que tem sido o maior desmando da História da nossa Democracia(?...), os atropelos à Constituição para obedecer aos patrões do FMI em nome da ”Crise”, os Belmiros, os Amorins, os Espírito Santo (não confundir com o da Santíssima Trindade…) os actos de traição às promessas eleitorais, as mentiras sucessivamente repetidas, o peculato, a promiscuidade, a pedofilia, a corrupção descarada, o tráfico de influências, as investigações que nunca levam a lugar algum, os processos arquivados. Mas tudo passa ao lado dos mortos-vivos.

Continuo a perguntar a mim próprio: até quando conseguirei resistir à tentação de enlouquecer? Ou quando terei a coragem necessária para enfrentar o momento de maior lucidez da minha vida?

Entretanto...

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Pirâmides sem vértice



era meu
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aquele sangue que nos tingiu as mãos
nervosas
naquela noite ávida de cérebros


foi dele
que nasceram os teus olhos
e nele
se nutriu a palavra deflagrada
no útero de cada tendão dorido
do teu corpo


agora
a nossa palavra 
propaga-se por dentro
da enxada óssea que fecunda a terra
e vai construindo - necessárias - pirâmides sem vértice
porque o fim - sempre - não chegará

terça-feira, 27 de outubro de 2015

O meu Manifesto. Por ti, Portugal!

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Escrevi o manifesto há dois anos. Reli-o há dias e considero-o ainda actual – podia tê-lo escrito hoje. Divulgo-o aqui, pois considero-o um dos textos mais sérios e sentidos que escrevi até hoje.




Por ti, por nós, Portugal!

O fim do Estado Social

Penso que todos os diagnósticos estão feitos, não há dúvidas de que estamos todos conscientes daquilo em que se tornou o nosso País. Não me conformo com a atitude resignada que verifico na maioria das pessoas com quem me cruzo, desistentes, alguns com a terrível resignação de que o suicídio, no limite, é a saída. Os pobres, os velhos, os doentes, os desempregados, aqueles que por infortúnio do Destino nasceram com necessidades especiais de cuidados e não dispõem dos meios financeiros para suprir as suas incapacidades, ou seja, todos aqueles que vivem com as dificuldades que ainda não me atingiram, nem a mim, nem a muitos de vós, estão totalmente desamparados e num estado de depressão que os incapacita de ter algum rasgo de revolta. Eles precisam de nós, por enquanto. Daqui a algum tempo, todos precisaremos uns dos outros. Não tenhamos ilusões, este monstro que nasceu no Holocausto Capitalista que alguns ingénua, outros hipocritamente apelidaram de Economia de Mercado, que se tem travestido de formas diversas e que neste momento dá pelo nome de União Europeia, mais não visa senão a destruição do Estado Social que se foi conquistando no pós-guerra, muito concretamente com as sementes lançadas após a derrota da Alemanha Nazi em 1945, com o Maio de 68 em França e a queda (pelo menos, formal) dos regimes fascistas de Portugal, Espanha e Grécia nos anos 70. Estamos perante uma grande ofensiva das classes poderosas e dominantes mundiais, querendo implacavelmente forçar o regresso ao passado, desvalorizando o valor do trabalho, eliminando todo o apoio social dos Estados às populações.
O Poder Absoluto Financeiro, derrotado nos meados do século passado, recuou, mas não desistiu. E foi esperando, com a paciência e tenacidade características, o momento certo para ripostar. Apoderou-se das estruturas que foram criadas (podemos presumir que os seus pioneiros o fizeram de boa-fé), entre outros,  por Jacques Delors, o projecto de uma Europa apaziguada e solidária, próspera e social, que levou a que uma série de países periféricos, atrás do sonho europeu, e no caso de Portugal, através de Mário Soares (a figura política mais destacada internacionalmente, por ambição desmedida de protagonismo e vaidade, à mistura com um total afastamento do país real, característica natural de uma burguesia liberal de oposição ao Estado Novo, mas com um status económico e social a permitir um auto-exílio dourado de “enfant terrible” em Paris), sem quererem compreender a fragilidade das suas economias, entregaram toda a soberania ao fazer capitular a economia de subsistência (agricultura, pescas, indústria não muito sofisticada, mas com mercado de importação garantido em países fora da “União”), numa espiral que levou ao mais alto acto de traição: a perda do Escudo e a entrada para o Euro (perguntemo-nos porque razão, um país como o Reino Unido não aderiu à moeda europeia…), uma moeda criada pela Alta Finança Alemã, totalmente controlada e dominada pela sua banca, que serve tão-somente para consolidar a sua hegemonia, pelo atrofio (facilitado por dirigentes corruptos que se prestam a servir como serventuários do Poder Alemão) de todas as restantes economias europeias.

La Grande Bouffe

Foi neste “on-going” que, nomeadamente no Cavaquistão, fundos comunitários (muitos dos quais, diga-se, vinham “armadilhados” em contratos que obrigavam a obras públicas faraónicas com obrigatória contratação de empresas alemãs ou, pelo menos, com participação maioritária de capitais daquele país, de prestação de serviços e compra de equipamentos) entraram a jorros, a troco de capitulações de soberania, concretamente na Agricultura e Pescas como é do conhecimento geral (PAC), subsídios a fundo perdido para renovação das empresas industriais (Vale do Ave, lembram-se daquela “renovação industrial” das vivendas faustosas e dos Ferraris e Lamborghinis?). Entretanto, as conhecidas grandes empresas de obras públicas portuguesas numa promiscuidade com governantes do poder central e autarcas, lá iam repartindo o repasto com as suas congéneres alemãs.
 E entra o BPN, o banco que serviu para todos os cavaquistas (e não só, e não só… lembram-se da corrida “louca” de Teixeira dos Santos para nacionalizá-lo?) roubarem dinheiros públicos e os colocarem a salvo em contas secretas nos paraísos fiscais, naquilo que se aponta ser a maior burla de sempre em Portugal, ultrapassando a de Alves dos Reis e cujo cálculo se presume, até agora, atingir os 9,7 biliões de euros. Além dos desvios e lavagem de dinheiro, perpetrados por muitos que são conhecidos e outros que ainda se conservam na sombra, serviu também para uma secreta operação de compra e venda de acções “fora do mercado” com que se pagavam os serviços às marionetas governantes, sendo o mais destacado aquele que hoje ocupa o cargo de Presidente da República. Alguém disse há tempos que Cavaco era o único dos Cavaquistas que não tinha ficado milionário, daí o facto da sua postura “ressabiada”, notada nalgumas das suas aparições públicas. Provavelmente, será verdade; no entanto, as “luvas” ir-lhe-ão certamente proporcionar uma velhice tranquila, de forma totalmente diferente do que são os problemas de alimentação, cuidados médicos, salubridade nas habitações das pessoas da sua idade, em cuja tragédia dos seus fins de vida ele foi cúmplice. A compra de dois submarinos (totalmente inúteis, dada a inexistência do equipamento que supostamente justificava o fim a que se destinava a sua aquisição, além das contrapartidas de que se está, até hoje, à espera) por aquele que, na altura, era Ministro da Defesa e tem hoje a pasta da Vice-Presidência do Conselho de Ministros, operação que conduziu à investigação, julgamento e condenação em tribunal dos corruptores activos no seu país (Alemanha), extraordinariamente, não levou a nenhuma punição, tão pouco divulgação pública dos corrompidos em Portugal.
Nacionalizaram-se todos os desmandos de vampiragem, transformou-se a dívida privada em pública e entregaram-se aos “Padrinhos” as empresas rentáveis, as que produzem riqueza e nos garantiriam a manutenção da soberania. Como se não bastasse, permitiu-se que empresas privadas, sendo que algumas são das que foram entregues aos “Padrinhos”, que fazem lucros fabulosos, beneficiando de “legislação” europeia feita de encomenda, deslocalizassem as suas sedes sociais para países como a Holanda, Luxemburgo, San Marino e outros, deixando de pagar em Portugal milhões de euros de impostos resultantes do exercício da sua actividade e acelerando vertiginosamente a nossa corrida para o abismo. Empresas bem conhecidas, como: Cimpor, Cofina, Inapa, Novabase, ParaRede, Soares da Costa, Altri, BES, BPI, BANIF, BRISA, EDP, EDP Renováveis, GALP, Jerónimo Martins (Pingo Doce), Mota-Engil, Portucel, Portugal Telecom, REN, Semapa, Sonae, Sonae.com, ZON, Media Capital.

O IV Reich

Como seria de prever, chegámos ao ponto crucial em que os “mercados”, os “credores”, acharam a altura certa para desferir o golpe. Provavelmente receosos de que os Socratistas não se prestassem ao papel tão imensamente infame, construíram uma crise para, através de uma operação poderosíssima da comunicação social que é propriedade dos grupos económicos milionários e totalmente controlada por eles, subissem à ribalta os seus lacaios de confiança que desenvolveram uma campanha para defender um estado social e um equilíbrio de contas públicas que estaria em perigo (mas quem teria dúvidas disso desde há 30 anos a esta parte?). A tradicional e tão sobejamente conhecida como paradigma de credulidade da população lusa, caiu no discurso de que nem um funcionário seria despedido, nem mais um tostão de impostos seria cobrado, as pensões e reformas garantidas como sagradas. Claro que quem esteve minimamente atento nos dois anos do segundo mandato do PS, sem maioria absoluta no Parlamento, percebeu, ouvindo e lendo os discursos acalorados da canalha, umas vezes nas entrelinhas, outras nem tanto, a cartilha neo-liberal de Passos e sus muchachos (deles e doutros correligionários que, espantosamente agora parecem ser os seus maiores críticos, mostrando-se preocupadíssimos com as clivagens sociais, vá lá entender-se…). Mas bastou apenas uma repentina mudança de discurso na campanha eleitoral, para que o "povo sereno", querendo castigar Sócrates, também pelas polémicas em que se deixou envolver com diplomas académicos obtidos ao domingo, relações duvidosas com patos bravos da construção civil, sucateiros e amigos dos ditos, ir a correr às urnas punir o prevaricador e eleger em apoteose o rapazola de Vila Real. O tempo encarregou-se de mostrar que os crimes de Sócrates não eram nem tantos nem tão grandes e alguns fabricados, mas não perderei tempo a tentar criar tabelas com graduações de desonestidade.

As autarquias e as autárquicas.

As autarquias estão mergulhadas num território de areias movediças, um lodaçal de corrupção, compadrio, clientelismo e promiscuidade. O triste espectáculo a que temos assistido nos últimos dias, com autarcas a não quererem largar os tachos e que saltam de concelho em concelho, beneficiando de leis de dúbia interpretação intencionalmente criadas pelas hienas legisladoras que ocupam o Parlamento é quase surrealista, de igual modo o espelho da nação em que insistimos viver, mas que de uma vez por todas teremos que mudar. Frases como “Roubou, mas deixou Obra”, “Se fosse eu na mesma posição, faria o mesmo”, “Para quê mudar? São todos a mesma coisa, é assim, sempre foi e há-de continuar a ser”, comentários que ouvimos nas ruas e mesas de café acerca dos autarcas mais mediatizados, têm que ser definitivamente banidos, se queremos recuperar a honra e dignidade que todas as nações merecem. Com o pretexto (à partida, absolutamente legítimo; no entanto, oportunisticamente muito bem aproveitado) que uma das bases da Democracia é a representatividade das populações de cada região, a depravada e vampiresca classe política lançou-se numa Cruzada de proliferação de freguesias (figura administrativa que não dispõe, na prática, de capacidade de decisão nem meios logísticos e que depende totalmente do poder concelhio, servindo apenas para garantir emprego às clientelas) e criação de Empresas Intermunicipais que se destinam, (além de, através do nepotismo, a mais criação de empregos para as clientelas), a que a prestação de serviços a uma autarquia não seja adjudicada através de concurso público, mas sim totalmente controlada por ela, situação que catapultou o endividamento autárquico para valores absolutamente absurdos.
Pergunto qual é a legitimidade do Presidente da Câmara de Lisboa, que não é eleito pela maioria esmagadora da população activa, a qual reside na área metropolitana, mas fora dos limites urbanos da cidade (e, como tal, banida de eleitora da sua verdadeira autarquia), neutralizada sob o estatuto de munícipe de pequenos concelhos dormitórios, constituindo um universo de cerca de 3.500.000 de pessoas que se movimentam, trabalham, pagam portagens, sustentam a restauração, restante comércio citadino e são esbulhadas pelos parquímetros da EMEL. Provavelmente, a resposta será simples: uma população lisboeta de apenas cerca de 500.000 pessoas, maioritariamente idosas (moradoras nos bairros ditos “históricos”), tendencialmente abstencionistas e tradicionalmente conservadoras; população moradora nos bairros sociais e degradados, maioritariamente abstencionista; e uma terceira parte de moradores em condomínios de luxo, indiscutivelmente eleitores dos partidos das classes dominantes, tornam imensamente fácil a eleição de um “paladino” suportado por um forte aparelho de lobbies económicos. A minha pergunta é idêntica, em relação à cidade do Porto.

E agora?
Dito isto, que em linhas muito gerais, é a minha apreciação do estado do país, ir-vos-ei apresentar, também de forma muito resumida, aquilo que no meu entender, deveria ser feito, com a convicção firme de que, a menos que a população se disponha a deixar o estado de apatia em que se encontra, dentro de muito pouco tempo “ELES” concluirão a missão que lhes foi destinada.

O que seria desejável?
Sem dúvida uma revolta popular massiva, defendida (ou, pelo menos, com garantia de neutralidade) por sectores progressistas das Forças Armadas sob a égide de capitães de Abril, como Otelo Saraiva de Carvalho e Mário Tomé) e de Segurança (PSP e GNR), liderada pelas poucas pessoas que ainda merecem respeito à população, gente com uma credibilidade transversal a toda a sociedade portuguesa, como é o caso de Carvalho da Silva, Francisco Louçã, outros ex-dirigentes associativos e de governação que têm sido cirurgicamente “desactivados”, com provas dadas na defesa dos valores de solidariedade social e com muita experiência política, que poderá (e deverá) criar de novo um entusiasmo nacional e, consequentemente, fazer a diferença e levar a acreditar que o Futuro ainda é possível.
Ocupação de todas as instituições, obrigando o poder a cair na rua e expulsando os traidores dos seus cargos, com a detenção imediata para investigação e instrução criminal de governantes e agentes políticos que a opinião pública conhece como corruptos e correntes de transmissão da máfia financeira internacional que nos oprime.
Detenção e confisco dos bens de todos os governantes e ex-governantes com enriquecimento ilícito, entendendo-se para o efeito como enriquecimento ilícito aquele obtido durante o exercício do cargo, sem que para ele haja uma explicação legítima e/ou legal.
Imediata contratação de empresas especializadas (lembram-se de há pouco tempo ter surgido uma entrevista numa televisão a um operacional das empresas que se dedicam a descobrir o rasto de dinheiro desviado para paraísos fiscais e que oferecia os seus préstimos ao Estado português, garantindo uma probabilidade grande de sucesso, tendo em conta a sua experiência e currículo?) para descobrir pistas do dinheiro roubado no BPN e muitas outras transacções do universo “off-shore” e economia paralela, conduzindo a que o Estado Português possa exigir o congelamento e confisco de contas bancárias relacionadas com aquela e outras fraudes.
Extinção pura e simples dos off-shores em território nacional.
Obrigação de todas as empresas que operam em Portugal, a pagar no país os impostos devidos pelo exercício das suas actividades.
Nacionalização imediata de todas as empresas estratégicas que foram “privatizadas” e oferecidas aos “Padrinhos”, pois esses chamados actos de privatização não foram mais do que crimes de lesa-pátria, perpetrados por traidores que devem ser julgados e condenados exemplarmente.
Negação ao pagamento da dívida à Troika, a qual foi concebida em condições de nunca a podermos pagar. A destruição que esse “resgate” provocou no país, cobre todas as taxas de juro possíveis e impossíveis até à Eternidade.
Criação imediata de condições de apoio real às populações desempregadas, muito concretamente nas cinturas industriais das grandes cidades, que queiram dedicar-se à agricultura no interior do país, tragicamente desertificado, disponibilizando-lhes parcelas de terreno para cultivar (com metas e objectivos definidos como obrigatórios, obviamente) e concedendo-lhes crédito bancário a baixas taxas de juro para o início da actividade. Com esta medida, promove-se a recuperação agrícola do país, bem como se alivia a pressão dos dramas sociais provocados pelas extremas dificuldades das famílias sem trabalho.
Recuperação da frota pesqueira, um dos nossos antigos orgulhos nacionais anteriores ao Cavaquistão, com incentivos fiscais aos armadores, tanto maiores quanto maior a mão-de-obra empregada. Criação de seguros de vida que protejam verdadeiramente as famílias de pescadores em caso de sinistro. Situação idêntica aplicada aos bombeiros.
Introdução do conceito moral de que qualquer trabalhador deve ser respeitado e pago por um salário digno que lhe permita o seu bem-estar e o da sua família.
Acabar de vez com a grande mentira, de que os incêndios que constituem um dos maiores flagelos do país (com perda de vidas humanas e, em muitos casos, perda total do património conseguido à custa de enormes sacrifícios durante toda a vida para tantas famílias, trágica desflorestação do território e terrível prejuízo económico, mas alimentando uma outra economia subterrânea), são resultantes de casos fortuitos de negligência ou actos tresloucados de pessoas com perturbações psíquicas ou dependentes do álcool. Identificar quem está por trás dos autores materiais, julgá-los e condená-los severamente, é um dever nacional.
Saída do Euro (penso que estará subentendido naquilo que escrevi anteriormente).
Renegociação dos termos da nossa integração na União Europeia, exigindo condições que nos sejam claramente favoráveis, sob pena de dela sairmos, propondo a Espanha um Tratado Estratégico Económico que pode(rá)ria ser alargado a alguns países da América Latina.
Transformar a economia de casino que nos foi imposta por uma outra real e solidária, sustentada e sustentável, conduzindo a um desenvolvimento que tantos nos querem impedir de atingir, possibilitando também desta forma criar condições de trabalho para todos os jovens especializados que estão a emigrar, acabando com a dramática sangria de recursos humanos e separação de famílias.
Garantir o apoio social e solidário, educação e saúde de qualidade para todas as pessoas.
Reestruturação total da Administração Local, de forma a eliminar definitivamente o regabofe autárquico.

Utopia? 

Utopia, podereis dizer-me. Mas o que seria de nós se um dia deixássemos de acreditar nela?

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Bico mutilado

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há sempre um gume fendido

que um pássaro transporta em bico mutilado.

e nada pode impedir
o quebrar do pus germinado
na pupila translúcida de um poema.
qual sopro libertando a nota enclausurada
em flauta de escala infra-sónica.

mas quem beija a criança
com moscas no crâneo e tectos no cérebro
além da folha que acusa a seiva por dentro
enraizada na história?

domingo, 25 de outubro de 2015

A Anunciação

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Uma noite, das poucas em que consigo dormir, tive um sonho arrebatador. Mas ao contrário da maior parte dos sonhos em que as imagens, situações e episódios entre pessoas que nunca se conheceram entre si, embora conhecidas do sonhador, passam pela nossa mente em catadupas, livres da filtragem e da crítica exercidas pela nossa consciência, como peças de teatro ou de cinema que tenham lugar em simultâneo no mesmo palco ou estúdio em que o protagonista é sempre a pessoa que sonha, cujos desfechos são não poucas vezes, senão totalmente impossíveis, pelo menos fortemente improváveis, essa capacidade de arrebatamento deve-se ao facto de numa espécie de “Anunciação” por uma entidade que não consegui identificar se mortal ou não, se homem ou mulher, mas que por analogia com os mais conhecidos episódios bíblicos, poderei chamar de anjo ou anja, pois não vislumbrei as suas partes pudibundas e mesmo que as conseguisse vislumbrar, confesso que não teria certezas, pois características de ambos os sexos lhe reconheci, a qual me revelou o Grande Segredo encerrado em mim, que andei tantos anos a tentar descobrir em vão, pois o dito estava num lugar demasiado profundo. Foi a primeira vez em que ao acordar do sonho, não disse para mim mesmo “mas que sonho mais disparatado!” Pelo contrário, não acordei sobressaltado nem transpirado, mas com a tranquilidade e a luz pura e cristalina de um lago nos Picos da Europa.

“Chegou a altura de saberes”, disse-me o anjo (ou a anja, nunca o saberei…) “que foste escolhido pelo Criador como ferramenta que Ele usará na transformação do comportamento da raça humana. Transportas uma nova versão, para teste, do síndroma do Rei Midas – aqueles em quem tocares não se transformarão em ouro, mas as expectativas que criares aos outros acerca do teu carácter e capacidade de amá-los, depressa se tornarão para eles em grandes desilusões que lhes trarão sofrimento e os farão odiar-te. Tudo o que fizeres para os tentar convencer de que, contrariamente ao que possam eles pensar, continuas a amá-los e tudo farás para o seu bem, será interpretado como uma obsessão constante e repetitiva de lhes causares cada vez mais sofrimento. É o teu Destino e não poderás nunca fugir-lhe por muito que tentes, pois o Omnipotente e Omnipresente assim o determinou, sendo a Sua vontade soberana e irrevogável! No entanto, não viverás assim “ad aeternum”. A Humanidade anda confusa e perdida, de costas voltadas para si própria, o que tira o sono ao Criador, que de há muito tomou consciência da imperfeição da Sua obra ((e vou confidenciar-te uma coisa, oxalá não me arrependa, mas parece-me que o mereces; no entanto, se um dia Ele me perguntar se te o disse, jurarei a pés juntos que é mentira, não te esqueças! É que Ele andou a ler uns textos desse tal que tanto aprecias, Saramago. E, na minha opinião, embora Ele o não admita (e ai de mim se Ele sabe o que te estou a dizer agora), nunca mais foi o mesmo desde esse dia – a recuperação da Humanidade tornou-se uma obsessão para Ele, se o termo “Obsessão” se poderá aplicar ao Criador e espero não estar a dizer uma heresia)). No entanto, o dia chegará em que os que te rodeiam compreenderão o mal que fizeram, a ti e, inerentemente a si próprios e os teus dias de Paz chegarão. Tu simplesmente irás acelerar esse processo.”

“Mas porquê eu?”, perguntei.

“Chamaste a atenção d’Ele quando vestiste a pele do Diabo, mostraste a todos despudoradamente os teus defeitos, os teus erros, as tuas falhas de carácter, as más acções, assumindo-as sem vergonha e com algum ar de desafio. Pintaste-te de Diabo mau (salvo o pleonasmo, pois todos sabemos que os diabos são maus) para protegeres o que há de bom em ti e enganaste toda a gente, menos, claro o Criador. Pior, chamaste a sua atenção, o que o levou a escolher-te, pois Ele melhor que ninguém, sabe que o Diabo não é tão mau como o pintam. E, quando o pintam assim, querem esconder alguma coisa. Querendo camuflar-te, tornaste-te exactamente o alvo mais fácil.”

Finalmente, fez-se Luz…












sábado, 24 de outubro de 2015

Suor



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assimilo o suor.

a chama é voz impotente,

mas crescem rios 

no ventre da lágrima condensada
nas paredes do poema.

a voz magra
penetra nas gengivas inflamadas
em cada maxila de suor…

… e nutre o ranger da transpiração...

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

O Atestado Médico



Com o propósito de obter um atestado de boa saúde para a renovação do meu título, visitei recentemente o consultório de uma médica com um contrato de avença numa escola de condução que, para além da actividade expectável, trabalha também como agência de documentos para condutores e veículos.


Sendo já a terceira vez que renovo a carta de condução e ciente de que o atestado médico não é mais do que um simples “pró-forma” resultante de uma meteórica consulta onde apenas se têm que ler as letras mais pequenas de um cartaz já amarelecido e abundantemente polvilhado por moscas e mosquitos que vão deixando as suas marcas indeléveis, e dizer que não se sofre de nenhum tipo de doenças muito resumidamente descritas pelo pragmático agente de saúde que está sentado à nossa frente, entrei na recepção com a despreocupada atitude de quem espera tratar do assunto sem exagerados gastos de tempo e preocupação.


Como cheguei com uma pontualidade britânica, exactamente à hora que estava agendada, fui recebido com um profissional “Bom dia, Senhor (o meu nome), pela recepcionista que me via pela primeira vez na sua vida, revelador de que não estaria mais ninguém para aquela hora, apontando-me para o local onde estavam duas salas lado a lado e pedindo-me para entrar na da direita. Olhei e verifiquei que estava uma senhora de bata branca na da esquerda, não havendo ninguém na da direita e, longe de imaginar que a minha interlocutora padecia de dislexia direccional, entrei obedientemente na que me foi indicada, não sem algum sentimento de perplexidade que não cheguei a cultivar senão por breves instantes, pois de imediato as minhas trompas de Eustáquio foram impressionadas por um asperamente musical e sonoro ”É para esta sala!”, proferido pela sorumbática e bastante “almodovariana” senhora da bata branca. Já vinha a correr para mim a recepcionista, com um sorriso encavacado de desculpas pela confusão, conduzindo-me para a sala da esquerda. Depois do educado “Bom dia”, provoquei um sorriso de boa disposição na médica, ao dizer bem-humorado que por norma me insatisfaz virar à direita e que apenas o tinha feito por ser uma pessoa bem-mandada; não fosse a confusão da recepcionista, ter-me-ia dirigido pela esquerda e sem hesitações à sala dela. No final desta já mencionada meteórica consulta, depois de ter respondido que me sinto perfeitamente bem, sem nenhuma doença catalogada, ela perguntou-me se distinguia bem as cores. Aí, eu hesitei por breves instantes e, então, com um ar cerimonial lhe respondi: “Vou ser-lhe franco, doutora, não consigo distinguir duas cores.” Ela, com um ar sério e olhos levemente arregalados, perguntou: “E quais são?” Respondi-lhe eu: “O laranja e o rosa…”


Sempre que penso neste meu quase vício de recorrer à metáfora quando dirijo a palavra às pessoas que me rodeiam, sou obrigado a concluir que praticamente já nasceu comigo e, se evocar as pessoas, familiares ou não, que mais marcas me deixaram na minha formação de ser humano, da infância ao estado adulto, indiscutivelmente são ou foram detentoras de uma ironia, tão metafórica quanto ferruginosa que, nas fases mais problemáticas e de maior fragilização das suas vidas foi usada como a sua armadura defensiva. No meu caso, nunca me preocupei em descobrir porque sou assim, não faço disso um desígnio existencial. Sou assim e pronto. No entanto, sinto que tem isto muito a ver com o espírito do “slogan” que Fernando Pessoa criou para a Coca-Cola: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. É com metáfora na ironia que encontro a boa disposição e a forma de a partilhar com os outros. Nem sempre sou compreendido quando a profiro, nem sempre sou bem aceite por quem a compreende. Mas neste caso concreto, a médica escancarou a boca num sorriso mostrando os dentes brancos, reprimindo a custo uma gargalhada e respondeu-me: “Estamos despachados, o senhor aparenta uma perfeita saúde, incluindo a visão. Desejo-lhe um bom fim-de-semana”. Levantou-se e acompanhou-me até à porta, com um ar divertido. Divertido também estava eu. E satisfeito. Afinal, aquele pseudo-exame não tinha servido apenas para obter um atestado. Serviu igualmente para transformar em alegre, o sorumbático semblante da senhora da bata branca. Porque a alegria muitas vezes é tudo o que um ser humano necessita. E as revoluções devem fazer-se com alegria.




quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Cravos Verdes


Welcome to the machine
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"cravos verdes"

o luar que te empasta o cérebro em quarto vaticante
é a estrada por onde caminhas
neste canteiro imberbibérico de cravos verdes.

não fora a janela em que me projecto
e negaria a criança como pai do homem
pois te conheci feto adulto em ventre menino
te acompanhei a puberdade intermitente
e te remiro hoje os passos titubeantes
nesta estrada de cravos verdes
a estrada do teu cérebro imberbibérico.

a pasta de cravos verdes e vómitos vaticantes
neste luar onde caminhas.

poderás talvez devastar este canteiro (meu canteiro?)
mas não semearás aqui instituições.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Tempo de Lutar, Tempo de Amar

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Este texto foi escrito fazendo parte de um projecto colectivo de um conto chamado O Ovo Mágico. Na qualidade de ser este um dos segmentos do conto colectivo, não começa no princípio da história nem termina no seu final. Mas, por outro lado e por essa condição, deixa ao leitor uma diversidade de interpretações. Considero, assim, poder ser este texto lido só por si próprio, convidando os leitores a acrescentar-lhe mentalmente prefixos ou sufixos ditados pela imaginação. Não será este um dos princípios da ficção literária?





Tempo de Lutar, Tempo de Amar






Eva, no estado de torpor em que se encontrava languidamente estendida na sua cadeira de pensar, numa tarde de sábado que morria docemente, sentia desvanecer, lenta e gradualmente, o som do bater de asas do galo, a procurar o equilíbrio possível na cana de pesca , enquanto que outro som ia crescendo de volume, um som metálico que de tão familiar, se tornava cada vez mais macio, diluindo-se nos outros ruídos do dia-a-dia, som de um instrumento da orquestra em actuação permanente da sua vida…

Abriu lentamente os olhos e viu à sua frente Adão, seu companheiro, que dava ao filho de ambos, Caim, conselhos redobrados de manuseamento da Kalash: segurança, rajada e tiro-a-tiro. Os dois, apercebendo-se de que ela tinha acordado, disseram em uníssono: “Eva, Mãe, já acordaste?” E agora, Adão: “Querida, estávamos a falar tão baixo quanto possível, pois não te queríamos acordar, já que dormias com um maravilhoso sorriso no rosto…” Ela respondeu apenas com um outro enorme sorriso do tamanho do mundo, mostrando os dentes brancos e os olhos cheios de rios e barcos. De imediato, ao olhar para o seu filho, Caim, virou a cara para o lado, de forma a não mostrar o ar introspectivo com que ficou, lembrando-se que no sonho apenas tinha tido um único filho, Abel. E recriminou-se por isso. Tão estranho… mas ao mesmo tempo, tão doce sonho!...
Desde que tinham passado à clandestinidade, opção de ambos, após terem chegado à conclusão de que a Corrupção, a Usurpação de Poderes e todos os tráficos possíveis no seu País, tinham minado todo e qualquer meio de combate político pacífico ((e conscientes de que arrastavam também dois filhos jovens, que no entanto (mostrando uma clarividência e determinação pouco usuais nas suas idades) manifestaram desde o início a sua vontade de os acompanhar na perseguição de um sonho de Liberdade e Bem-Estar para o seu povo, sacrificado, espezinhado desde os primórdios, usado e abusado, nada mais restando a quem tivesse um pingo de vergonha, dignidade e solidariedade para com os seus compatriotas, senão a opção tomada)), tinham-se transformado em proscritos, em alguém que não pode sequer por breves momentos descurar a atenção e vigilância. Adão dormia pouco, muito pouco, muitas vezes dormitava de pé com a Kalash nas mãos, encostado à entrada da gruta algures na Arrábida, mas adorava observar a sua companheira sorrindo a dormir. Protegia-a como podia e sabia, mais ainda após a trágica morte do segundo filho, Abel, vítima de uma emboscada montada pelo exército dos Tiranos, quando passavam os dois irmãos por um dos trilhos da Serra. Nunca tinham (nem Adão, nem os seus camaradas de luta, foragidos e espalhados por outros pontos da Serra) entendido as razões pelas quais estariam ali militares do Estado Tirano, depois da zona ter sido “varrida” quase palmo a palmo algumas horas antes. Caim voltara à gruta, informando os seus pais de que o irmão tombara, pedindo ajuda a seu pai para o resgate. Mas, misteriosamente, quando lá chegaram, não encontraram o corpo – durante horas revolveram arbustos, passaram a pente fino toda a área, mas nem o mais ténue sinal de Abel. Finalmente, cansado e desesperado, Adão regressou à gruta com a triste notícia para Eva: o (corpo do) seu filho tinha desaparecido.
Eva não chorou, não fez luto; durante semanas, todas as manhãs perguntava a Adão com os seus olhos de rios e barcos: ”Por onde andará? Porque tarda a voltar?” Adão abraçava-a com força e sussurrava-lhe ao ouvido: “Ele sabe tomar conta de si, quando chegar a altura, ele voltará…” Eva não lhe podia ver agora os olhos, mas eram de cinza, de carvão apagado, os músculos dos seus braços retesavam-se, apertando cada vez com mais força a sua companheira. Um dia, Eva deixou de perguntar… Limitava-se a olhar para o trilho por onde tinham partido os dois irmãos… após alguns minutos, voltava para o computador portátil, revendo os textos que seriam enviados para o Servidor do Movimento, alojado num país neutro, a fim de serem distribuídos na Rede.
Eva recordava os tempos em que era Bióloga, o seu ternurento e excêntrico director, o Professor Hikyll e havia alturas em que se questionava se tudo tinha valido a pena. Mas de imediato olhava para o pequeno quadro que tinha pendurado na parede da gruta, com o seu poema preferido de Pessoa: “…Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena… Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor...”, fechava os olhos e uma tranquilidade lhe inundava o corpo e a alma. Outros dias havia em que lhe vinham à memória (espontaneamente, sem que fizesse questão nisso ou muito menos tivesse prazer de o lembrar) as constantes disputas entre os seus filhos – quem chegava mais depressa à Rocha Inclinada, quem atirava uma pedra mais longe, quem conseguia encher mais depressa o carregador da Kalash… Lembrava-se bem que na maioria das vezes, Abel era mais rápido, embora sendo o mais novo e a constatação desse facto irritava Caim ao ponto de começar a praguejar contra o irmão, acusando-o de fazer batota e chamando a atenção dos pais, o que levava não raramente à sua intervenção para pôr cobro à discussão. Eva recordava as vezes em que, chamando de parte o seu filho Caim, lhe tentava fazer compreender que, para se ser bom não tem que ser-se necessariamente o melhor e ele não precisaria nunca de demonstrar a sua superioridade face ao irmão para ter o amor, respeito e consideração, quer dos pais, quer dos restantes combatentes que se iam juntando à luta e à clandestinidade. Mas a obsessão superava a razão e, para sua preocupação, Eva continuava a assistir, impotente, à necessidade de afirmação (e frustração, quando o não conseguia) do seu filho mais velho, Caim. Sempre amara os dois filhos por igual, o desaparecimento do mais novo (que ela teimava em não aceitar como tendo falecido) não transferiu a torrente de carinho de um para o outro: continuou a amar Caim como sempre, assim como dedicava o mesmo amor a Abel, ou, se se quiser, convertendo na mesma medida a tristeza pela sua ausência. As frustrações de Caim tinham acabado, é certo, mas (e também por essa razão) Eva, conscientemente, nunca o quis transformar em novo-filho-único, mimando-o em excesso ou sendo demasiadamente tolerante em relação a hábitos e atitudes de menos correcção. Em certas alturas, Eva era visitada por temores e pensamentos terríveis que de imediato afastava com todas as suas forças, tentando não transparecer na presença do seu companheiro nada do que estava a sentir, admoestando-se a si própria por ser capaz de tais pensamentos. E dos ditos não me alongarei mais, certo de que o leitor já por certo se terá apercebido da ideia subjacente às minhas palavras, conhecendo ou não o Antigo Testamento.
Um dia, Adão chegou de uma Operação, visivelmente transtornado, Eva pareceu ver-lhe lágrimas nos olhos e perguntou: “O que aconteceu, porque estás assim, morreu algum dos nossos?” Ele respondeu-lhe: “Dos nossos ninguém morreu, tão pouco dos deles… mas eu quase que matei um soldado, muito novo, um rapaz, pouco mais que uma criança… Ainda bem que a visibilidade era boa e pude fazer pontaria para onde queria… Não me perguntes porque me arrisquei tanto, ao tentar apenas neutralizá-lo, ferindo-o sem gravidade, pois não te sei responder. Ainda assim, quis evitar magoá-lo, mas não pude – era ele ferido ou eu morto – apontou-me a espingarda e ia disparar; atirei-lhe para o braço cuja mão tinha o dedo encostado ao gatilho… de imediato deixou cair a arma, esta que trago ao ombro, quando o vi de joelhos no chão, com cara de menino, a chorar como só uma criança o sabe fazer, senti um nó na garganta… é assim a guerra, quem me dera que fosse o Presidente da República, ou o Primeiro-Ministro, o Ministro da Defesa ou qualquer outro Ministro, ou um banqueiro, um deputado ou qualquer outro parasita do País, quem estivesse dentro daquela farda a apontar-me a arma”, teria sem hesitação atirado a matar… mas quando vi aquele garoto, aquela cara sardenta… “Deixaste-o ir embora?”, perguntou de imediato Eva, “Sim, respondeu Adão, “não sem antes lhe dizer estas palavras: Rapaz, tens consciência do que andas a fazer? Sabes que o exército em que militas serve para o Poder Tirano reprimir, oprimir, destruir, condenando à fome o Povo? Que serve para invadir países que nunca nos ameaçaram, nunca nos fizeram mal, semeando a destruição e morte das populações, apenas em nome da ganância de uma minoria de ricos que não têm outro objectivo na vida senão o de ficarem cada vez mais ricos à custa da miséria de muitos mais, apoderando-se de todos os meios de produção e subsistência, escravizando milhões cuja única culpa é a de terem nascido?” “E ele respondeu?” perguntou Eva, com a voz a tremer e os olhos de rios em enchente . “Arregalou os olhos, como uma criança que começa a ver pela primeira vez e tenta perceber o mundo que a rodeia e perguntou-me: vai matar-me? Olhei para ele como um pai que olha para um filho que cometeu uma travessura, tentando disfarçar com um olhar austero o coração que se ia derretendo naquelas sardas do seu rosto e perguntei-lhe de novo: em que estás a pensar? E ele respondeu-me: na minha casa, na minha mulher que teve agora um bebé, é um rapaz, ela diz que é a minha cara, tem sardas iguais às minhas, pusemos-lhe o nome de Abel; nos meus pais que devem estar muito preocupados pelo facto de há dias não dar notícias; no meu cão, “Ardent”, fiel amigo; estou a pensar que nunca mais os verei.” “O teu filho chama-se Abel… tens alguém na família com esse nome?” “Não, aconteceu por acaso”, respondeu o rapaz. “Um dia, eu e a minha mulher, estando ela grávida, caminhávamos pela praia junto ao mar e vimos na areia molhada escrito esse nome. Não estava ninguém por perto, não conseguimos entender porque razão o nome apareceu à nossa frente, momentos depois veio uma onda e a palavra desapareceu. Naquele momento, aparentemente, esse facto não teve importância, mas, na manhã seguinte quando acordámos, eu disse para ela: tenho um nome para o nosso filho; e ela respondeu: eu sei, é Abel. E Abel ficou.” “Rapaz, disse-lhe eu, hoje é o teu dia de sorte, fui eu que te apareci ao caminho, qualquer outro dos meus camaradas de armas com quem te tivesses encontrado te teria morto ou ferido com gravidade, é o mais provável, assim como provável será que o Destino nos tivesse juntado hoje. Será? Vai-te embora e quando estiveres em casa, na companhia da tua família, lembra-te do que te acabei de dizer. Nunca te esqueças que nós, os foragidos, apenas o somos porque é essa a nossa Missão… ou Destino, se lhe quiseres chamar. Somos guerrilheiros porque um dia chegámos à conclusão que alguma coisa teria que ser feita para bem de todos nós, para garantirmos um presente digno e um futuro de esperança para os filhos dos filhos dos nossos filhos. Agora vai… Levantou-se e partiu. Fiquei a vê-lo, por momentos, a afastar-se. Passou por uns arbustos mais altos, contornou uma rocha e desapareceu. Havia qualquer coisa de familiar nele, mas não consigo perceber o quê, não sei se alguma vez o conheci ou me cruzei com ele, mas sei que nunca o esquecerei, disso tenho a certeza…”. Eva olhava o seu companheiro com aqueles olhos enormes de rios e barcos, perscrutando algo no brilho dos olhos dele, ansiosa, trémula, incapaz de esperar… “Quando finalmente deixei de fixar o sítio onde o vi pela última vez, contornando a rocha e me decidi a voltar, olhei distraidamente para o chão e, para meu espanto, vejo um estranho ovo, pintalgado, no preciso local onde o rapaz tinha estado ajoelhado…” “O sonho!, gritou Eva, o sonho!” “ Que sonho?, perguntou Adão.” “Adão, o que fizeste ao ovo?, perguntou Eva.” “Tenho-o aqui no meu alforge”, respondeu. “Mostra-mo, por favor!”. Adão abriu o alforge e retirou dele cuidadosamente um estranho ovo cor de carne apresentando pintas por toda a casca. “Trouxe-o para ti, Eva, é a minha prenda do teu aniversário, claro que não me esqueci que hoje fazes anos…” Os olhos de Eva eram de rios, de barcos, de enchentes, de cascatas. Pegou tremulamente no ovo e confirmou, como no sonho, que as pintas eram exactamente a cópia fiel das sardas no rosto do seu filho Abel, desaparecido, que tanto tardava a voltar…

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Entre Barreiras


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entre barreiras ergo o esqueleto
entorpecido para rasgar o sepulcro da vontade.

vi-te correr como gaivota de asas de cera
a imensidão do oceano tão longínquo
e tão estreitamente intemporal.

por isso te conservo sem braços sem rosto
despida de ideologias
de olhos nus por entre a barba
da terra em cada manhã fresca
de cacimbo quando gritavas
a tua sede no azul que flutuava em redor.

falo não-digo.
já ouço lá fora o histerismo contagiante:
as moscas poisam-me nas mãos.